Rito Francês "RITO GROUSSIER"

 

O Ritual do Rito Francês atualmente utilizado pela maioria das Lojas do Grande Oriente de França (GODF) é comumente chamado de “Rito Groussier”. É justo. Republicano ardente levado ao combate secular e social, Arthur Groussier havia entendido, ainda antes da Primeira Guerra Mundial, que a vulgata positivista e cientificista havia tido o seu dia e que era necessário dar à Maçonaria do Grande Oriente de França uma espiritualidade renovada. Mas esta obra, que pretendia que fosse coletiva, só ficaria concluída em 1955.

 

 
Fig. 1 - Arthur Groussier[1]
Iniciado em 1885, com 22 anos de idade, e Maçom ativo até à sua morte em 1957, Arthur Groussier encarna, em 72 anos de profícua Maçonaria, várias das valentes gerações de Irmãos do Grande Oriente de França que se envolveram fervorosamente na luta republicana. Ele representa também, nesta longevidade, um longo e rico itinerário, a integração de abordagens que, marcadas no início por uma concepção muito exigente de justiça social, evoluíram sem renunciar a toda uma série de considerações filosóficas e morais.

Mas o que talvez tenhamos tendência a ignorar quando pensamos nele é que, também em termos rituais, Arthur Groussier foi uma ponte. De fato, ele resumiu a maior parte da História do Rito Francês, que praticou em suas evoluções ao longo de várias décadas. Acima de tudo, ele é a força motriz da grande mudança na forma como o Rito é visto no âmabito do GODF.  

Como iniciador e "parteiro"[2]  da  regeneração  do  Rito  em  uma versãoque conseguiu ser ao mesmo tempo nova e tradicional antes da guerra e, após, como guardião de sua existência e continuidade.

 
 
Fig. 2 - Fac-símile de parte da caderneta com os registros dos Graus obtidos por Groussier porquanto membro da Loja "L'Émancipation".


Arthur Groussier foi iniciado na “Loge L'Émancipation” segundo o Ritual de 1858 (conhecido como “Ritual Murat”) então em uso. Este último não estava muito longe da versão adotada no Século XVIII pelo Grande Oriente de França em relação ao que fora impresso em 1801 sob o título de “Régulateur du Maçon”, uma versão que era substancialmente fiel às práticas originais da instituição.

Intocadas pelo “
Ritual Murat” de 1858, as fórmulas, sequências e gestos do Rito Francês original foram seriamente alteradas, ou mesmo abolidas, em 1887, 1907 e 1922. No entanto, a resistência de muitas lojas a estas alterações foi perceptível.
 
Mas este “Ritual de Murat” pesou o discurso de forma moralizante e introduziu o espartilho de uma orientação deísta, notadamente nas suas referências às duas obrigações dogmáticas relativas à crença em Deus e na imortalidade da alma, introduzidas em 1849, ao mesmo tempo que introduziu a tríplice divisa:  “Liberté  –  Égalité  –  Fraternité”.  Pelo menos não toca na estrutura fundamental do Ritual, composta por fórmulas, sequências e gestos característicos. Aquelas mesmas que, posteriormente, serão suprimidas ou seriamente alteradas.[3]
 
Fig. 3 - Lucien Murat[4]
 
 
Fig. 4 - Louis Amiable[5]
A primeira mudança fundamental no Rito foi feita em 1887. Com essa versão, chamada de “Ritual Amiable”, em homenagem ao Irmão Louis Amiable, que a promoveu, foi dado um passo decisivo.

Longe de se contentar em eliminar as invocações e os comentários relacionados ao Grande Arquiteto do Universo (GADU),  de  acordo  com  a  decisão do Convento de 1877, o Irmão Amiable, 
sob a influência da corrente positivista majoritária de então, suprimiu um grande número de termos e de aspectos alegóricos do Rito e, de modo geral, tudo o que pudesse ter uma ressonância simbólica, evocar uma questão metafísica ou simplesmente envolver a emoção e o corpo. O objetivo era excluir “práticas supersticiosas". Ao mesmo tempo, assistimos à inserção de comentários insípidos.
 
Segundo e terceiro estágios: apesar de algumas hesitações e comentários relativos, por exemplo, ao Grau de Mestre, com uma nova versão em 1907 (o “Ritual Blatin”), e mais ainda com a versão de 1922, desaparecerem com a maioria das últimas fórmulas significativas e os poucos remanescentes de uma teatralidade que, no entanto, é essencial para compreensão do cerimonial maçônico.

Na mesma linha, o Ritual de 1922 reflete o desejo de sufocar a própria ideia de um Ritual como hoje o concebemos. Os Trabalhos estão praticamente abertos ao “golpe de um malhete”, à custa da leitura de uma citação tranquilizadora e da execução de uma bateria. Não se tratava de verificar nem mesmo a cobertura do Templo, a regularidade dos Irmãos, a idade ou o tempo. Quanto à recepção, ela se reduziu a um mínimo de gestos e à leitura de chavões decorativos. Os elementos em que se sustentam e se baseiam a vida da Loja são distorcidos.
 
Fig. 5 - Jean -Baptiste Antoine Blatin[6]

  

A tendência do século XIX de despojar o Ritual de suas "práticas supersticiosas" foi revertida depois. Seria a onipresença da morte na mente das pessoas? Elas estavam cansadas de um secularismo que deixava pouco espaço para a espiritualidade? Groussier entendeu a necessidade da reversão e participou dela.
 
A degradação era tamanha que alguns Irmãos e Oficinas se sentiam tentados a romper com os regulamentos maçônicos mais recentes. As Sessões estavam cada vez mais sendo substituídas por “reuniões de Comitês”, que não exigiam o uso de paramentos. Como resultado, as iniciações e os “aumentos de salário” eram realizados de forma rápida e coletivamente (com várias Lojas), ao confinamento de vários profanos nos “Gabinetes de Reflexão"[7], o avental e as luvas foram abandonados em favor de tão somente um cordão, e havia cada vez mais violações dos procedimentos e métodos de exame para os candidatos.

Essa deterioração, que refletia a tentação, da parte de um segmento do GODF, de transformar a Maçonaria em mera associação de grupos de reflexão, encontrou resistência. No final da década de 1920, essa resistência se tornou forte. Vários fatores pesaram e levaram a uma reversão radical dessa tendência. Arthur Groussier foi rápido em entender a necessidade. Ele foi o precursor; inicia a reflexão, depois promoveu e tornou irreversível a nova formulação ritualística que estava surgindo.